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Um rio que ferve no meio da floresta, existe e está na Amazônia peruana

Um rio cujas águas apresentam temperaturas de 86ºC até 99,1ºC. Isso mesmo! Um rio em que as águas literalmente “fervem” no meio da floresta. Não é lenda. Ele existe e está no meio da amazônia peruana.

Trata-se do Rio Shanay-Timpishka, o maior rio geotérmico do mundo, chegando a ter 4,5 metros de profundidade em alguns pontos. Ele tem 30 metros de largura e flui em temperaturas extremas por 6,4 quilômetros!

O rio foi estudado pelo Geólogo peruano, Andrés Ruzo, então aluno de doutorado da Universidade Metodista do Sul, no Texas, Estados Unidos, na ápoca em que relatou sua descoberta.

A existência desse curioso manancial foi tida como uma lenda durante muito tempo. Ruzo ouviu muitas vezes, quando criança, a história desse rio contada por seu avô, Daniel Ruzo, um pesquisador e exímio conhecedor da cultura inca.

Anos depois, já formado, Ruzo resolveu empreender uma expedição para investigar e descobrir se o rio poderia mesmo existir de verdade.

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O nome do rio Shanay-timpishka significa “fervido com o calor do sol” na lingua indígena local.

Ruzo, que é especialista em energia geotérmica, explicou em entrevista, como a ciência ajuda a entender a existência desse rio, estudado agora, a partir das histórias narradas por uma cultura milenar.

Rio Shanay-Timpishka na Amazônia peruana – Foto – NatGeo – Divulgação

Seu avô contava histórias sobre conquistadores europeus que se embrenhavam na floresta amazônica em busca de uma cidade mitológica chamada PAITITI palavra do idioma quéchua, traduzida em espanhol como “El Dorado”.

Segundo as histórias, esses conquistadores jamais retornaram com alguma confirmação da existência da lendária cidade, a não ser narrando terem encontrado tribos com flechas envenenadas, serpentes gigantes e enormes aranhas comedoras de pássaros.

A curiosidade do cientista aumentou, quando sua tia Margarida Gonçalves, brasileira do estado do Rio Grande do Sul, que trabalhava com povos originais amazônicos, garantiu ter visto um rio super quente em uma visita a um xamã.

Assim durante sua pesquisa do curso de doutorado, que propunha a elaboração de um mapa geotérmico do Peru, Ruzo e sua equipe, a partir de Lima, voaram até Pucallpa.

A partir de Pucallpa, em uma caminhonete, percorreram cerca de 4 horas até um rio, em que, após 1 hora navegando em um barco motorizado, chegaram na desembocadura do rio Shanay-timpishka com o rio Pachitea.

“Começamos a notar a água esquentar, mas ela ainda não fervilhava” – disse o pesquisador. “Estávamos a 700 quilômetros do centro da região vulcânica mais próxima”. “Aquela era uma zona definitivamente não vulcânica”.

É sabido que todos os rios quentes já documentados no mundo se encontram sempre nas proximidades de algum vulcão.

O pesquisador narrou que, após mais uma hora de jornada a pé no meio da floresta, ouviu o barulho forte das águas do rio parecendo ondas que se chocavam e percebeu sinais de vapor de água no meio da densa vegetação.

Ruzo chegou a pensar que o fenômeno do rio que ferve não era natural. Na primeira medição seu termômetro registoru incríveis 86ºC. Depois de três anos de pesquisa ele chegou a conclusão, o que acontece no rio é absolutamente natural. E tem explicação científica.

O rio Shanay-Timpishka tem seu calor gerado por características geotérmicas do seu subsolo. Fontes termais de falhas geológicas.

A hipótese ainda a ser confirmada por mais estudos é que as águas em sua gênese são provenientes das geleiras dos andes.

O gelo derretido se infiltra profundamente através de rochas altamente porosas ou em fendas em algum ponto do seu caminho. Então é super aquecida por fenômenos geotérmicos internos e reaparece em um ponto de ressurgência na amazônia formando o rio.

O Geólogo Andrés Ruzo escreveu um livro sobre o assunto – “O rio fervilhante – Aventuras e descobertas na Amazônia”.

Em outros estudos em colaboração com colegas da National Geographic, foram descobertos novas espécies de organismos extremófilos vivendo no rio ou próximo dele.

O cientista peruano entende que as tradições das culturas locais e a ciência podem e devem colaborar e partilhar conhecimentos, que podem trazer entedimentos novos e elucidar fatos.

Os xamãs cuidam dessas regiões e do conhecimento dos povos primordiais desde sempre.

Apesar de ser um cientista, isso não o impede de ouví-los com respeito e buscar compreender seu modo de ver as coisas. São visões de mundo diferentes, a ótica da ciência e os significados cosmológicos tradicionais.

Entretanto, ciência e cultura tradicional, juntos, podem trazer perspectivas novas de forma a ampliar as fronteiras do conhecimento, entende o geocientista.

Mas o rio que ferve corre risco, na medida em que está localizado em uma região crítica em termos de desmatamento. É preciso estabelecer medidas de proteção urgentes.

O ecossistema da amazônia é responsável por regular o ciclo de chuvas de toda a América do Sul. A única exceção é o Chile que integra outro sistema pluviométrico.

Andrés Ruzo relatou sua pesquisa desenvolvida no rio Shanay-Timpishka, em uma palestra no programa TED TALKS.

Bibliografia

HALE, Tom. A mais de 86 ° C, o “rio fervente” da Amazônia pode literalmente cozinhá-lo vivo. IFLScience [S.I]. Reino Unido, Novembro de 2024. Disponível em: https://www.iflscience.com/at-over-86c-the-boiling-river-of-the-amazon-can-literally-cook-you-alive-76908. Acesso em 11/02/2025 à 16:00 h.

LOPES, Larissa. Shanay-Timpishka: conheça o rio peruano que ferve no meio da Amazônia. Revista Galileu [S.I]. São Paulo, Abril de 2020. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2020/04/shanay-timpishka-conheca-o-rio-peruano-que-ferve-no-meio-da-amazonia.html. Acesso em: 12/02/2025 ás 8:05 h.

Imagem da capa – Rio que ferve no Peru – Foto Nature Element – X – Twitter – Reprodução

Imagem do texto – Rio Shanay-Timpishka na Amazônia peruana – Foto – NatGeo – Divulgação

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Foto de Jefferson Alvarenga

Jefferson Alvarenga

Jefferson Alvarenga é criador e editor do Site Biota do Futuro. Biólogo, Pós Graduado em Gestão da Saúde Ambiental e em Imunologia e Microbiologia. Apaixonado por educação, pesquisa e por divulgação científica.

Como citar este conteúdo: ALVARENGA, Jefferson. Um rio que ferve no meio da floresta, existe e está na Amazônia peruana. Biota do Futuro. Betim, 12 de fevereiro de 2025. Disponível em: https://www.biotadofuturo.com.br/um-rio-que-ferve-no-meio-da-floresta-existe-e-esta-na-amazonia-peruana/. Acesso em 31/03/2025 às 04:12 h.

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